sexta-feira, 11 de junho de 2010

Aquarela.

Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo...

Corro o lápis em torno
Da mão e me dou uma luva
E se faço chover
Com dois riscos
Tenho um guarda-chuva...

Se um pinguinho de tinta
Cai num pedacinho
Azul do papel
Num instante imagino
Uma linda gaivota
A voar no céu...

Vai voando
Contornando a imensa
Curva Norte e Sul
Vou com ela
Viajando Havaí
Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela
Brando navegando
É tanto céu e mar
Num verde azul...

Entre as nuvens
Vem surgindo um lindo
Avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar...

Basta imaginar e ele está
Partindo, sereno e lindo
Se a gente quiser
Ele vai pousar...

Numa folha qualquer
Eu desenho um navio
De partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida...

De uma América a outra
Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo...

Um menino caminha
E caminhando chega no muro
E ali logo em frente
A esperar pela gente
O futuro está...

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar...

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá...

Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
(Que descolorirá!)
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo
(Que descolorirá!)
Giro um simples compasso
Num círculo eu faço
O mundo
(Que descolorirá!)...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Morte do Artista

ACTRIZ – Eu sou uma artista. Sim! Uma artista! Digo-o com vigor, e com vigor aceno com a cabeça em jeito de afirmação. Mas… onde estão os papéis? As encenações, os guiões, o palco? Onde está o teatro? Não sei. Mas para mim, a morte só existirá, quando o pano deixar de descer, deixar de ouvir aplausos e deixar de me sentir viva.

CANTORA – Eu também sou artista, mas dona da voz e das melodias tristes. A morte não passa disso mesmo, duma melodia triste. Quando deixamos de ouvir os sons, quando a voz já não obedece ou quando já não me querem ouvir. Eu nasço e morro e cada melodia que canto.

FOTÓGRAFA – O que é a morte, senão negativos por revelar? Fotografias a preto e branco, que existem, mas sem cor. Cada flash é uma vida, cada foto um ser, que não passam de memórias soltas de uma vida que acabou. Para ela não há soluções. E porquê? É o destino de todos nós.

PINTOR – Uma tela em branco. Um paisagem por desenhar. Um rio que passa, e que eu desenho. Mas que quando eu partir, eu rio ficará. A morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais. Não se apoquentem, nós sobrevivemos. A sorrir, obviamente.

sábado, 17 de abril de 2010

Verdade da Mentira

Podia ter sido diferente, mas não fui. Até podia ter sido feliz, mas não fui. São tantos os sentimentos, os pensamentos que me passam pela cabeça e pelo peito. São tantas as coisas que quero viver, e não vivo. Existem sensações desconhecidas, labirintos do meu ser, que tambem desconheço a saída. Não existem placas nem direcções, nem bússulas, nem rosas dos ventos com o Norte ou o Sul. Até podia mandar um berro bem alto, gritar ao mundo o que quero e o que sou, mas não posso. O medo e a angústia assombram-me a toda a hora, e impedem-me de seguir o meu instinto. Basta pôr um sorriso, um ar feliz, seguir em frente como se nada fosse, e fingir que o mundo é fácil e verdadeiro. Mas é mentira, ele não está pronto para suportar diferenças, pessoas que estão à margem da sociedade, porque simplesmente são marginalizadas. Não posso mudar, o que não quer ser mudado. Eu fraquejo, tenho medo, inseguranças. Não estou pronto para me lançar às feras deste circo, para ser chicoteado pelo meu domador. Agora vivo escondido, magoado na penumbra da noite e do dia. Agora tenho pena dos palhaços, dos mascarados que vivem escondidos entre a verdade da mentira.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

À Beleza

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga, in 'Odes'

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Criadas I

" E estas luvas! E estas eternas luvas! Estou farta de te dizer para as deixares na cozinha. Secalhar é com isto que contas seduzir o leiteiro. Não, não mintas. É inútil mentir. Vai pendurá-las por cima do lava-loiça. Quando é que tu perceberás que este quarto não pode ser conspurcado? Tudo, absolutamente tudo quanto sai da cozinha é esterco. Leva daqui os teus escarros. Vai-te embora. Ora pára lá com isso!"

" Não te importes, continua a embonecar-te. Não há que ter pressa, temos imenso tempo. Sai "

/Clara